Como lidar com a ofensa e o perdão? Será que perdoar quem nos magoou é o caminho para a paz interior?
"A não ser que você seja um anjo imaculado e habite uma dimensão celestial, longe das imperfeições e das mazelas humanas, você já teve que perdoar alguém e também já precisou ser perdoado.
Eu diria que é improvável cruzar a vida sem prejudicar e ser prejudicado, magoar e ser magoado, decepcionar e ser decepcionado. Com ou sem intenção, nas relações humanas, esses verbos malquistos algum dia acabam sendo conjugados. E, nesses casos, o substantivo perdão tem de ser chamado a compor o texto, senão a vida não completa sua sintaxe.
O perdão é, sim, um importante meio de obter paz de espírito, ainda que não seja o único. Mas, como todos os outros recursos que pavimentam o caminho que leva ao estado de graça interior que, por sua vez, permite ao humano usufruir da tranquilidade de conviver consigo mesmo, o perdão verdadeiro é difícil de ser praticado.
Perdoar é o ato de libertar o outro da culpa, mas é mais que isso. Em sua função libertária, o perdão liberta quem o pratica. É um ato de grandeza de espírito, que representa, acima de tudo, uma doação.
For-give, vor-geben, per-dón, per-dão. Praticamente em todos os idiomas a palavra perdoar obedece a sua origem do latim vulgar perdonare, que é formada pela junção do prefixo per (através de ) com a palavra donare, que representa o ato de doar ou, melhor ainda, dar-se.
Através do perdão a pessoa doa o que há de melhor em si mesma - a compreensão, a compaixão e a esperança. Você me ofendeu e me magoou, e eu compreendo que você falhou porque é humano, compadeço-me por seu arrependimento e tenho a esperança de que tal não se repetirá. Por isso, o perdoo. Simples e belo. Mas... sempre possível? Essa é a verdadeira questão existencial do perdão.
Qual o melhor caminho para compreender o perdão?
"Errar é humano, perdoar é divino", dito o ditado. Mas ele está um pouco ultrapassado. Há tempos que o conceito de perdão abandonou o céu angelical para vagar em terra mundana. O principal motivo é que sem ele a vida em comunidade não seria possível, pois cada ofensa geraria uma inimizade. O perdão não é apenas uma atitude, é uma qualidade necessária à elevação dos espíritos, como demonstram várias áreas do pensamento humano que já se debruçaram sobre ele, como a filosofia, a psicologia e a religião.
Na Bíblia, o perdão é tema recorrente. No Velho Testamento, em Levítico (16:29-31), encontramos que Moisés institui um dia dedicado à purificação dos pecados. Considerado como um "estatuto perpétuo", tal data é respeitada pelos judeus, que a chamam de Yom Kippur - o dia do perdão. A importante ocasião ocoore logo após o Rosh Hashanah - o ano-novo judeu. Pedagógica correlação, pois esclarece que não se deve iniciar um novo ciclo sem perdoar e obter perdão.
Moisés havia subido o monte Sinai para ter um encontro com o Divino, de quem recebeu as tábuas com os Dez Mandamentos. Ao descer, a decepção. Encontrou os hebreus adorando uma imagem, uma estátua de bezerro, ignorando seus conselhos de que só devemos adorar a Deus. Em sua revolta, atirou as tábuas ao chão, quebrando-as, e não lhe restou saída senão voltar à montanha e pedir novamente as tábuas a Deus, implorando-lhe, também, o perdão. Ele então instituiu aquele dia para marcar o perdão concedido pelo Senhor à iniquidade de seu povo e a sua própria ira.
As orações e o jejum praticados no dia do perdão, além do compromisso de o ofensor não mais cometer as transgressões novamente, são alguns dos passos seguidos por aquele que quer limpar suas mágoas para começar purificado ano novo.
Foi nesse dia, em que a noção de perdão foi pela primeira vez esboçada como um importante valor humano, e também ali, dentro dessas mesmas raízes judaicas, que o cristianismo brotou.
O Pai-nosso, a oração mais importante entre os cristãos - que teria sido ensinada pelo próprio Cristo -, considera o perdão uma forma de estabelecer uma relação com Deus e com os homens. "Perdoai nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido", diz uma passagem, antes de pedir força para evitar as tentações e proteção contra os infortúnios da vida. Sim, o perdão precede o poder e a segurança.
Por que o perdão faz bem a quem perdoa e beneficia quem é perdoado?
Entre os filósofos, o perdão também é tema ancestral. Foi, só para ilustrar, assunto de simpósios, os encontros em que, entre um gole e outro de vinho, os antigos gregos se punham a discutir as grandes questões que inquietam o espírito humano, como a morte, a coragem e o amor. "Só quem tem a capacidade de perdoar conquista o direito de julgar", disse Sócrates num desses momentos de sabedoria e embriaguez em que a civilização ocidental foi gestada.
Contemporâneo de Cristo, o romano Sêneca introduziu o perdão na esfera do estado. Em sua obra, Tratado sobre a clemência, o tutor de Nero apresentou a arte de perdoar como a principal arma para o governante lidar com a justiça e firmar-se como estadista. Segundo o filósofo, praticar atos clementes seria exercitar a temperança do gênio, a tranquilidade do espírito e a virtude do erudito. O perdão real possibilitaria a coesão do estado na sociedade, atendendo às diferentes vontades das classes, ao mesmo tempo que serviria como excelente instrumento jurídico, permitindo a aplicação da pretensa justiça com moderação. Apesar disso, ele mesmo foi vítima da falta de perdão. Desconfiado de sua traição, Nero o condenou à morte.
Depois de muitos séculos e de muitas reflexões e textos sobre o assunto, a filósofa alemã Hannah Arendt, que migrou para os Estados Unidos com a ascensão do nazismo, escreveu em seu livro A condição humana, que o perdão é uma resposta libertária: "o perdão é a única forma de reação que não 're-age' apenas, mas age de novo e inesperadamente, sem ser condicionada pelo ato que provocou e de cujas consequências liberta tanto quem perdoa quanto o que é perdoado (...) é a liberação dos grilhões da vingança".
Com essas palavras, ela faz uma conexão com a psicologia, que busca a qualidade do pensamento e a calma das emoções, e diz que perdoar faz bem porque livra a pessoa das amarras do ódio e da injustiça. Perdoar beneficia quem é perdoado, mas favorece principalmente quem perdoa. Acontece que perdoar é uma atitude, mas primeiro é um sentimento. Antes de perdoar com as palavras, é necessário perdoar com a mente e com o coração, senão o efeito não é o mesmo, fica pela metade, vira falsidade. É preciso coragem para perdoar de verdade.
É de autoria de Freud o notável texto "Repetição, lembrança, translaboração". Nele, o pai da psicanálise propõe que o inconsciente, que aprisiona a pessoa no passado e não permite que ela conviva em harmonia com o presente nem consiga ver esperança no futuro, seja examinado com coragem e grandeza suficiente para produzir o mais importante dos perdões: o perdão a si mesmo.
E quando a pessoa não merece perdão?
A verdadeira questão filosófica do perdão é a opção de aplicá-lo. Mais importante que perdoar é decidir perdoar com convicção, o que implica visitar os princípios da justiça.
No casamento de sua filha, meu amigo José Ernesto protagonizou um dos mais comoventes momentos que eu já tive a oportunidade de presenciar. Ao dizer aos noivos o que ele lhes desejava, aconselhou: "Sempre que possível, escolham o perdão. Sempre que necessário, escolham a justiça".
Em duas frases, ele sintetizou a essência das relações humanas que valem a pena. As relações devem ser dotadas de valores, não apenas de objetivos comuns. Quando as pessoas se juntam apenas por motivos utilitários, remetem sua relação à época dura das cavernas, em que tudo era permitido em nome da sobrevivência. Casamentos, amizades, empresas, agremiações políticas - qualquer tipo de encontro entre duas pessoas tem um objetivo que as mantenha unidas, mas se for apenas isso a uni-las - objetivos, metas, destinos -, pessoas não serão pessoas, mas meros componentes de uma engrenagem mecânica. Ao humano, competências conferem utilidade, valores providenciam dignidade.
Não há vida digna sem justiça, e o perdão é parte dela. Parte. Perdão não é justiça. Perdão é decorrente da justiça. E praticar justiça remete a pessoa à tarefa de julgar, provavelmente a mais ingrata das missões humanas, pois significa entender os motivos de quem fez o que fez, considerar os efeitos do que foi feito e decidir sobre a pena justa e conveniente, que pode ser, entre outras, o perdão.
É possível perdoar o assassino frio, o estuprador impiedoso, o corrupto contumaz? É justo perdoar o juiz da Inquisição, o patrocinador do Holocausto, o instaurador do Apartheid? Ora, sem considerar a justiça, o perdão é obsceno; sem contemplar o perdão, a justiça é malévola; afinal, a justiça é uma necessidade, o perdão, uma possibilidade.
Ainda assim, mesmo considerando que seja pesado julgar, difícil ponderar os fatos envolvidos, doloroso relevar mágoas, impossível esquecer ofensas, o ato de perdoar é grande, digno e belo. Até porque, ao julgar alguém, é conveniente fazer algum julgamento de si mesmo, para, ao perdoar o outro, guardar para uso próprio um pouco do perdão. Porque você, eu, qualquer um, se viveu uma vida, precisará ser perdoado por não tê-la aproveitado melhor."
Texto: Eugenio Massuk
Fonte: Revista Vida Simples, Outubro 2009, Edição 84
Sunday, 4 October 2009
Saturday, 3 October 2009
Wednesday, 30 September 2009
A era do tô me achando
Por que necessitamos cada vez mais da aprovação, do amor, da admiração e (até) da inveja dos outros? Entenda como funcionam os mecanismos da vaidade - e saiba como se imunizar para não ficar se achando a última bolacha do pacote.
"Bacanas teus óculos", falei. Leves, classudos, num tom esportivamente escuro, cada lente com uma sombra que subia de baixo para cima, tornavam misterioso o olhar do amigo, um jovem editor. Comentei que nunca o tinha visto de óculos. Ele devolveu: "Pois é, mas eu estava com a vista cada vez mais cansada, até que fui ao oculista e ele me disse que precisava usar. Dois graus de miopia. Excesso de leitura. Fazer o quê...", compungiu-se, o olhar vago, empurrando o par de lentes nariz acima com um charme intelectualmente sofrido. Mês depois, encontrei uma amiga cujo pai é o oftalmologista. Entre anedota e outra, ela me contou que um curioso cliente do pai havia pedido um modelo de óculos em grau. É, era ele mesmo - o editor.
Vivemos tempos curiosos. A cada segundo, e através de todos os meios possíveis, somos expostos aos corpos mais perfeitos, às biografias mais irretocáveis, à pose generalizada de famosos e anônimos. Vaidade pura. Mas um momento: você já experimentou sair por aí todo mulambento, comparecer despenteado a uma entrevista de emprego, esconder de parentes e amigos aquele êxito nos estudos? Impossível, não? Porque, hoje, não ter vaidade - não ter o hábito de apregoar aos quatro cantos, reais e virtuais, o quanto você pode ser atraente, sensacional e único - parece ser um dos maiores pecados da nossa era, esse tempo em que todo mundo parece estar "se achando".
(...)
Vício letal
Parâmetro fácil, mas vaidade, como parâmetro norteador desta época, é algo bastante volátil para definir. Vai longe o tempo em que ser vaidoso bastava para condenar um cidadão, ou editor, ao inferno. No início da cristandade, a vaidade, sob a alcunha de vanglória, foi pecado capital; por volta de 1500 integrou a lista na forma de orgulho ou soberba; ainda é a mais diabólica contravenção para os cristãos ortodoxos. segue relacionada à Prostituta da babilônia no Apocalipse. Foi o que conduziu Lúcifer, mais belo dos anjos, do lado direito do Senhor aos portões do inferno, por rejeitar a imagem de deus em benefício da própria. (...)
Pelo Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, inexplicavelmente esgotado desde 1984, "vaidade" tem 71 substantivos agins, incluindo "ânsia incontida de despertar a admiração", "parlapatonice", "exibicionismo", "pretensão", "megalomania", "egoísmo", "inchaço" e, claro, "narcisismo". (...)
Meu sinônimo favorito, o que ajuda a iluminar nosso tempo, é "inchaço". Até por causa da característica física da palavra - como se o vaidoso estivesse "cheio de si". Mas que seria concretamente esse "si"? O ser ou o nada? Batom, botox ou fotos bacanas no Facebook? Sapatos Gucci, um iPod novo ou um belo currículo na Casa do Saber? O cabelo do Justus, a peruca da Dilma, os pneus de Ronaldo Fenômeno, o bigodão de José Sarney, o retrato de Dorian Gray? A obsessão pela juventude dos sessentões vampirescos atrás das menininhas, a susanavieirização do mulherio? A vaidade sempre seria ruim, ou poderia ser um componente positivo da competitividade, um estímulo caprichoso à autoafirmação? Ou seria mesmo um vício - e um vício letal, matando tanto anônimos que tentam ficar lindos na mesa da lipoaspiração quanto os Michael Jacksons que lutam pela glória através de remédios contra a dor de horas de torturantes exercícios físicos?
Narcisismo epidêmico
Óbvio que, na sua ampla e incansável psiquiatrização do cotidiano, os norte-americanos já tratam a vaidade como patologia. Autora de Generation Me, a psicóloga Jean Twenge crê que a autoconfiante geração nascida a partir de 1980 - que passa horas lambendo as migalhas da própria existência entre o Facebook e o MySpace - é muito mais narcisista que as gerações anteriores.
Twenge trabalhou com o colega W. Keith Campbell no recém lançado best-seller a analisar os miolos moles dos ianques: The narcisism epidemic. Para a dupla, a coisa ficou preta e o espelho trincou - e o resultado, ora vejam, é o bode expiatório da vez, a malfadada crise econômica.
Parece meio infame, tanto quanto o transtorno obsessivo narcisista. Mas faz setnido - sobretudo para a alma norte-americana, sempre tão disposta a diagnosticar-se e tratar-se e partir para o próximo transtorno como se não houvesse amanhã, caso a doença mexa no bolso. Em entrevista à revista de educação US World Report, Campbell afirma ter comparado as pesquisas com jovens entre narcisistas e obesos: "Os resultados foram bem semelhantes", diz. Numa amostragem de 35 mil jovens, a dupla de psicólogos descobriu que 6% sofriam de transtorno obsessivo narcisista. Contudo, somente 3% das pessoas acima de 65 anos tinham esse transtorno. "Um dado a comprovar que estamos em uma epidemia fora de controle", afirma o psicólogo.
Ele enumera quatro causas: a educação dos pais, a cultura de celebridades, a mídia e o crédito barato. "Muitos pais tratam seus filhos como reis", diz. "Reality shows são altamente narcisistas, e supõe-se que sejam a vida real; neles, subentende-se que o narcisismo é algo normal". Campbell é especialmente duro com a rede. "As pessoas nunca falam que leem Guerra e Paz, de Leon Tolstói, no Myspace. Em vez disso, colocam fotos sensuais, a coleção de amigos, as músicas legais. Para piorar, crédito barato faz com que os jovens gastem para se parecerem melhores do que realmente são. Têm coisas que não fizeram força nenhuma para pagar". Claro que esse argumento financeiro tem muito a ver com a realidade americana, onde bolhas econômicas costumam ser uma rotina - mas, afinal, o mundo está cada vez mais parecido com os Estados Unidos.
Vaidosos anônimos
Provavelmente a valorização do discurso da autoestima e a febre da autoajuda são culpadas dessa apoteose ao me-achismo. Porém, como depois da tempestade sempre vem a ambulância, conforme deduziria o pensador Vicente Matheus, imagino que daqui a alguns anos a loucura narcísica dará valor à autocasca-de-banana, ao autofail: aprenderemos a puxar em público o nosso próprio tapete. (...). Esse culto desenfreado ao amor-próprio ainda vai produzir coisas estranhas... Em breve, abrirão inscrições para os Vaidosos Anônimos. Pode escrever.
Por enquanto, vamos vivendo a grande época da vaidade. A imodéstia saiu do armário e está toda serelepe (...).
Na outra ponta do estudo do narcisismo, o filósofo francês Giles Lipovetsky faz uma abordagem ao mesmo tempo eufórica e catastrófica - espelho fiel do espírito da época, a que ele nomeia de forma eloquente, ao gosto dos franceses, como A Era do Vazio. (...) Em O Império do Efêmero, Lipovetsky faz uma leitura bastante original da cultura contemporânea através da importância cada vez mais crescente da moda. Muito gaulesmente, diz que a moda - especificamente a florescida em Paris - condensa na ideia de individualidade os ideais da Revolução: liberdade, igualdade e fraternidade.
Solidão em massa
"A promoção das frivolidades só se pôde efetuar porque novas normas se impuseram, desqualificando o culto heroico de essência feudal e a moral cristã tradicional, que considera as frivolidades como signos do pecado do orgulho", afirma Lipovetsky. "Da ideia de altivez relativa à dignificação das coisas terrestres saiu o culto moderno da moda" (...). O filósofo não separa a moda - e, assim, o fascínio pelo Novo - da ideologia individualista, do culto ao bem-estar, aos gozos materiais, ao desejo de liberdade, à vontade de enfraquecer a autoridade e as coações morais, ao triunfo da ideologia do prazer.
No entanto, Lipovetsky lembra que a busca dos valores individuais traz um fenômeno ainda mais estranho que o estudado pelos senhores psicólogos acima: a "solidão em massa" refletida no número cada vez maior de suicídios. "A era da moda consumada é inseparável da fratura na comunidade e do déficit de comunicação: as pessoas se queixam de não serem compreendidas ou ouvidas, de não saberem se exprimir" - uma festa de autistas que lembra um pouco uma rave impulsionada por ecstasy, ou uma sessão furibunda de Twitter movida a banda larga.
O pensador francês sugere que vivemos um segundo momento da Era do Vazio, em que "a busca da riqueza não tem nenhum objetivo senão excitar admiração ou inveja". Nesse mundo ultracompetitivo, o Outro só faz sentido se viabilizar o sucesso do Eu. No igualmente sombrio e triunfante A Era do Vazio, Lipovetsky aproxima os conceitos de vacuidade e vaidade, vazio e Narciso: "Que outra imagem é melhor para significar a emergência de individualismo na sensibilidade psicológica, centra sobre a realização emocional de si mesma, ávida de juventude, de esportes, de ritmo? (...) O neonarcisismo é psicologia pop: a expressão sem retoques, a prioridade do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença em relação aos conteúdos, a assimilação lúdica do sentido, a comunicação sem finalidade e sem público, o remetente transformado em seu principal destinatário".
Em uma imagem que resuma tudo: o meu elegante amigo observando-me superior por trás das lentes falsas, feliz da vida por enganar a si mesmo.
Texto: Ronaldo Bressane
Fonte: Revista Vida Simples (Editora Abril)
Você precisa estar no centro das atenções (médicas) se...
- Possui senso grandioso de autoimportância (espera ser reconhecido como superior sem que tenha feito ações à altura)
- Preocupa-se com fantasias de sucesso (poder, brilho, beleza ou amor ideal ilimitados)
- Acredita que é especial (e que só pode ser compreendido por outras pessoas especiais ou de status elevado)
- Precisa de admiração excessiva
- Sente-se em posição de possuir direitos (ou seja, tem expectativas além do razoável de receber tratamento favorável ou de aceitação automática das suas expectativas)
- Aproveita-se de relacionamentos interpessoais (manipula os demais para atingir seus próprios objetivos)
- Não demonstra empatia (não tem disposição para reconhecer os sentimentos e as necessidades alheias ou identificar-se com isso)
- Muitas vezes inveja os demais (e/ou acredita que os outros o invejam)
- Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes ou insolentes
- Leu este teste observando-se ao espelho (brincadeira...)
Nota da autora do blog: Infelizmente, é impossível ler essa lista sem reconhecer alguns destes comportamentos em si mesmo. E ainda mais triste que isso, é a sensação de conhecer pelo menos duas pessoas relativamente próximas a mim que poderiam ser descritas pela lista completa. E não falo apenas de adultos da minha idade, mas particularmente da nova geração de adolescentes, o que me faz acreditar na epidemia de narcisismo.
Sunday, 27 September 2009
Então vá se perder
"Então vá se perder
Tudo que eu te disse
Eu nem tinha pra dizer
Os lugares parecem
Te prender ao chão
Teus pés aonde irão
Sem mim?
Então vá se trocar
Lavar o seu passado
Mudar pra não mudar
Os passos
Sapatos, pés
E tornar-te quem tu és
O mistério da sua fé
Em si
Crescer, sumir, partir, chegar
Revirar e se descobrir
Se elaborar, se transformar...
Me diz como fugir do que levamos por dentro
Me diz como fugir do que levamos por dentro
Quando
Você irá cair
Em si?
Então vá se perder
Tudo que eu te disse
Eu nem tinha pra dizer
Os lugares parecem
Te prender ao chão
Teus pés aonde irão
Sem mim?"
Ana Carolina
Wednesday, 16 September 2009
"The time of my life"
Nascido em 18 de agosto de 1952 em Houston, Texas, o ator e dançarino Patrick Swayze não poderia adivinhar no começo de sua profissão como ator que se tornaria parte do imaginário popular feminino.
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O personagem Johnny Castle em Dirty Dancing é um daqueles raros personagens de cinema que a maioria (se não todas) as mulheres desejam. Ele está ali, lado a lado com o Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito.

Ainda me lembro da sensação de assistir o filme Dirty Dancing (1987) no cinema, aqui em João Pessoa: a paixão de pré-adolescente, a vontade de dançar, começar a entender o que era desejo...
O outro personagem dos sonhos foi Sam Wheat, o personagem título de Ghost (1990). A cena de amor desse filme é uma das mais bonitas que já vi.
Apesar do sucesso com mulheres do mundo inteiro, o coração dele tinha dona. Casado com a também dançarina Lisa Niemi desde 1975, o ator escreveu uma declaração de amor para ela na sua recente biografia que ainda vai ser lançada, intitulada 'The time of my life':
"Juntos, nós criamos jornadas que foram além de qualquer coisa que pudéssemos imaginar. (...) Mesmo assim, você ainda tira o meu fôlego. Eu não estou completo até que olhe nos seus olhos. Você é minha mulher, minha amante, minha parceira e minha dama. Eu sempre a amei, eu a amo agora e para sempre vou amar ainda mais."
Após lutar contra um câncer pancreático por pouco mais de um ano, Patrick faleceu na segunda-feira, dia 14 de setembro de 2009.
Goodbye, Johnny.

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O personagem Johnny Castle em Dirty Dancing é um daqueles raros personagens de cinema que a maioria (se não todas) as mulheres desejam. Ele está ali, lado a lado com o Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito.
Ainda me lembro da sensação de assistir o filme Dirty Dancing (1987) no cinema, aqui em João Pessoa: a paixão de pré-adolescente, a vontade de dançar, começar a entender o que era desejo...
O outro personagem dos sonhos foi Sam Wheat, o personagem título de Ghost (1990). A cena de amor desse filme é uma das mais bonitas que já vi.
Apesar do sucesso com mulheres do mundo inteiro, o coração dele tinha dona. Casado com a também dançarina Lisa Niemi desde 1975, o ator escreveu uma declaração de amor para ela na sua recente biografia que ainda vai ser lançada, intitulada 'The time of my life':
"Juntos, nós criamos jornadas que foram além de qualquer coisa que pudéssemos imaginar. (...) Mesmo assim, você ainda tira o meu fôlego. Eu não estou completo até que olhe nos seus olhos. Você é minha mulher, minha amante, minha parceira e minha dama. Eu sempre a amei, eu a amo agora e para sempre vou amar ainda mais."
Após lutar contra um câncer pancreático por pouco mais de um ano, Patrick faleceu na segunda-feira, dia 14 de setembro de 2009.
Goodbye, Johnny.

"I've had the time of my life
No I never felt this way before
Yes I swear it's the truth
And I owe it all to you
'Cause I've had the time of my life
And I've searched through every open door
'Til I found the truth
And I owe it all to you"
Friday, 11 September 2009
Chovendo desgraças
"O chuveiro tem temperamento. Alguns ligam, outros nos devolvem a fé.
A ducha de casa funcionava perfeitamente com exceção de um detalhe: uma gota fria no meio da enxurrada quente. Não sei de onde vinha, como vinha.
Era um pingente de lago russo.
No inverno, aquela gota gerava um maremoto de raiva. Quebrava o ritmo aconchegante do calor, desconcentrava o apetite. Eu deixava de saborear o resto da torrente para analisar sua origem intrusa, intrigado com o milagre.
De que maneira a gota furava o aquecimento?
A gota dava um tabefe e sumia. A cada dois minutos. Cronometrava, contava alto.
Mais certeira do que cuspe de calha, de ar-condicionado. Tumtum nas costas. Não havia como escapar dela. Usei touca de plástico, óculos de mergulhador, equipamentos submarinos. Não surtia efeito, o minúsculo líquido prosseguia com sua acupuntura autodidata.
Tremia ao sair do banho. Sua queda na carne retirava o luxo do banheiro vedado, trancado, com estufa. Era uma porta aberta no corpo.
Acabava com minha custosa técnica de abrir a torneira no ponto certo, sem a luz despencar. Complicado atingir o limite ideal do registro, firmar o estalido de cofre, acertar a temperatura.
Eu me preparava para a surpresa. Aumentava a sensibilidade para reconhecê-la. Fechava os poros para abri-los assustados.
Vinha como um remédio de criança, sôfrego. Uma gota de paralisia. Caía lentamente, separando as vértebras.
Foram três anos lutando contra o pingo e perdendo. Exigia uma atitude aos pais, conversava com os três irmãos e ninguém notava sua aparição. Não trocaram de aparelho. Ele permaneceu, eu é que abandonei a casa.
Minha adolescência durou menos do que o chuveiro elétrico.
Dessa guerra caseira, herdei a sina de não abandonar problemas. Se há uma dificuldade, tenho que resolvê-la no ato. Paro tudo o que estou fazendo e tento consertar. A leve irritação vira ofensa pessoal.
Não suporto uma conta em aberto, uma tarefa inacabada, uma inimizade; maltrato-me até resolver as pendências. Mas sempre existe um pedido, uma nova reclamação ou um desentendimento. Ter pressa é não ter paz.
Bastaria seguir adiante para me acostumar. Mas não, meu medo de esquecer me impede de lembrar. Fico travado, em greve, batendo na mesma tecla, insolente, insatisfeito, renitente, sem sair do lugar do incômodo.
Elimino a sensação de toda água quente que passou pelos ombros para valorizar uma bolha gélida. Faço com que todos participem de minha mobilização imaginária. Se alguém ficar de fora será mais uma gota a ser combatida.
É uma pequena pontada que transformo em dor que elevo em trauma que glorifico em incompreensão.
Interrompi vários momentos bons de minha vida pela birra com um detalhe.
O que me leva a crer que não procurava a falha, criava a falha, me dedicava para que o mal-estar prosperasse e justificasse o meu empenho na briga.
Depois do escândalo, preparava outro escândalo para compensar o despropósito da raiva. Não desistia de argumentar para sustentar o erro.
Não é fácil me desligar.
A gota acentuava tão-somente a minha frieza."
Fabrício Carpinejar
http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/
A ducha de casa funcionava perfeitamente com exceção de um detalhe: uma gota fria no meio da enxurrada quente. Não sei de onde vinha, como vinha.
Era um pingente de lago russo.
No inverno, aquela gota gerava um maremoto de raiva. Quebrava o ritmo aconchegante do calor, desconcentrava o apetite. Eu deixava de saborear o resto da torrente para analisar sua origem intrusa, intrigado com o milagre.
De que maneira a gota furava o aquecimento?
A gota dava um tabefe e sumia. A cada dois minutos. Cronometrava, contava alto.
Mais certeira do que cuspe de calha, de ar-condicionado. Tumtum nas costas. Não havia como escapar dela. Usei touca de plástico, óculos de mergulhador, equipamentos submarinos. Não surtia efeito, o minúsculo líquido prosseguia com sua acupuntura autodidata.
Tremia ao sair do banho. Sua queda na carne retirava o luxo do banheiro vedado, trancado, com estufa. Era uma porta aberta no corpo.
Acabava com minha custosa técnica de abrir a torneira no ponto certo, sem a luz despencar. Complicado atingir o limite ideal do registro, firmar o estalido de cofre, acertar a temperatura.
Eu me preparava para a surpresa. Aumentava a sensibilidade para reconhecê-la. Fechava os poros para abri-los assustados.
Vinha como um remédio de criança, sôfrego. Uma gota de paralisia. Caía lentamente, separando as vértebras.
Foram três anos lutando contra o pingo e perdendo. Exigia uma atitude aos pais, conversava com os três irmãos e ninguém notava sua aparição. Não trocaram de aparelho. Ele permaneceu, eu é que abandonei a casa.
Minha adolescência durou menos do que o chuveiro elétrico.
Dessa guerra caseira, herdei a sina de não abandonar problemas. Se há uma dificuldade, tenho que resolvê-la no ato. Paro tudo o que estou fazendo e tento consertar. A leve irritação vira ofensa pessoal.
Não suporto uma conta em aberto, uma tarefa inacabada, uma inimizade; maltrato-me até resolver as pendências. Mas sempre existe um pedido, uma nova reclamação ou um desentendimento. Ter pressa é não ter paz.
Bastaria seguir adiante para me acostumar. Mas não, meu medo de esquecer me impede de lembrar. Fico travado, em greve, batendo na mesma tecla, insolente, insatisfeito, renitente, sem sair do lugar do incômodo.
Elimino a sensação de toda água quente que passou pelos ombros para valorizar uma bolha gélida. Faço com que todos participem de minha mobilização imaginária. Se alguém ficar de fora será mais uma gota a ser combatida.
É uma pequena pontada que transformo em dor que elevo em trauma que glorifico em incompreensão.
Interrompi vários momentos bons de minha vida pela birra com um detalhe.
O que me leva a crer que não procurava a falha, criava a falha, me dedicava para que o mal-estar prosperasse e justificasse o meu empenho na briga.
Depois do escândalo, preparava outro escândalo para compensar o despropósito da raiva. Não desistia de argumentar para sustentar o erro.
Não é fácil me desligar.
A gota acentuava tão-somente a minha frieza."
Fabrício Carpinejar
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