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Friday, 30 July 2010

Eu aprendi

"Eu aprendi que a melhor sala de aula do mundo está aos pés de uma pessoa mais velha.

Eu aprendi que ter uma criança adormecida nos braços é um dos momentos mais pacíficos do mundo.

Eu aprendi que ser gentil é mais importante do que estar certo.

Eu aprendi que nunca se deve dizer não ao presente de uma criança.

Eu aprendi que eu sempre posso fazer uma prece por alguém quando não tenho a força para ajudá-lo de alguma outra forma.

Eu aprendi que não importa quanta seriedade a vida exija de você, cada um de nós precisa de um amigo brincalhão para se divertir junto.

Eu aprendi que algumas vezes tudo o que precisamos é de uma mão para segurar e um coração para nos entender.

Eu aprendi que os passeios simples com meu pai em volta do quarteirão nas noites de verão quando eu era criança fizeram maravilhas para mim quando me tornei adulto.

Eu aprendi que deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo que lhe pedimos.

Eu aprendi que dinheiro não compra "classe".

Eu aprendi que são os pequenos acontecimentos diários que tornam a vida espetacular.

Eu aprendi que debaixo da "casca grossa" existe uma pessoa que deseja ser apreciada, compreendida e amada.

Eu aprendi que Deus não fez tudo num só dia; o que me faz pensar que eu possa?

Eu aprendi que ignorar os fatos não os altera.

Eu aprendi que quando você planeja se nivelar com alguém, apenas está permitindo que essa pessoa continue a magoar você.

Eu aprendi que o AMOR, e não o TEMPO, é que cura todas as feridas.

Eu aprendi que a maneira mais fácil para eu crescer como pessoa é me cercar de gente mais inteligente do que eu.

Eu aprendi que cada pessoa que a gente conhece deve ser saudada com um sorriso.

Eu aprendi que ninguem é perfeito até que você se apaixone por essa pessoa.

Eu aprendi que a vida é dura, mas eu sou ainda mais.

Eu aprendi que as oportunidades nunca são perdidas; alguém vai aproveitar as que você perdeu.

Eu aprendi que quando o ancoradouro se torna amargo a felicidade vai aportar em outro lugar.

Eu aprendi que devemos sempre ter palavras doces e gentis, pois amanhã talvez tenhamos que engolí-las.

Eu aprendi que um sorriso é a maneira mais barata de melhorar sua aparência.

Eu aprendi que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito.

Eu aprendi que só se deve dar conselho em duas ocasiões: quando é pedido ou quando é caso de vida ou morte.

Eu aprendi que quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer.

Eu aprendi que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorrem quando você está escalando-a."

Extraído do livro: Live and Learn and Pass It On, Volume II - de H. Jackson Brown Jr.

Friday, 1 January 2010

Salas dos passos perdidos

O Natal anuncia que a vida é uma viagem, que somos todos -como Jesus- viajantes


"NATAL É uma das épocas do ano em que mais viajamos.

Isso é especialmente verdadeiro no hemisfério Sul. Ao Norte do equador, as pessoas tentam reunir suas famílias, que foram dispersas pelo tempo, pelos casamentos, pelas perspectivas de trabalho ou, simplesmente, por cada indivíduo ter anseios de independência e vontade de tocar a vida por conta própria. Ao Sul do equador, a essa vontade de reunião de família, acrescenta-se a proximidade das férias de verão: junte Natal com o Ano Novo, use 15 dias de férias, e lá vamos nós.

Por essa razão, no Natal, as rodoviárias e os aeroportos são sempre abarrotados, pelos viajantes e por seus restos voluntários (lixo) e involuntários (malas extraviadas e crianças perdidas). A quem viaja, aconselha-se levar consigo o necessário para encarar, sem demasiado tédio, filas e esperas intermináveis. É um paradoxo: "Chegue antes porque, de fato, o voo partirá só bem depois do horário previsto".

Seja como for, muitos de nós passarão um bom tempo naqueles espaços intermediários que são os saguões, as salas de espera, as salas de embarque, em suma, os cenários (menos fugazes do que gostaríamos) de nosso trânsito.

Uma bonita expressão francesa designa esses espaços como "salles des pas perdus", com ou sem hífen, que significa "salas dos passos perdidos". Não sei se existe uma etimologia definitiva dessa expressão, mas parece que, originalmente, salas dos passos perdidos são os átrios dos tribunais de Justiça, onde as partes, depois de ter exposto seus argumentos, esperam a decisão da corte em intermináveis idas e voltas de passos "perdidos", ou seja, movidos só pela ansiedade e pela incerteza quanto ao futuro.

Hoje, a expressão se refere também às salas de espera e aos vestíbulos centrais dos aeroportos e das estações ferroviárias, em suma, a aqueles lugares onde fazemos a hora batendo pernas, lugares que, simplesmente, não são nem nossa origem nem nosso destino, mas sempre apenas transições.

Já assisti a noticiários televisivos de 25 de dezembro em que a notícia eram os "infelizes" que, entre atrasos, tempestades e "overbooking", passaram a noite do dia 24 no saguão de uma aeroporto. Logo no Natal; é o cúmulo, não é?

Nem tanto. Pense bem, o Natal cristão celebra um nascimento, o de Jesus, que acontece num estábulo, que, para quem viajava a dorso de mula ou de jumento, 2.000 anos atrás, era o equivalente de uma rodoviária ou de um aeroporto.

O Natal anuncia que a vida é uma viagem, não só porque estaríamos em trânsito para outro lugar onde seremos recompensados ou punidos para sempre, mas porque somos todos, como o recém-nascido da festa, viajantes: ninguém vale pela sua ascendência, pelo lugar onde nasceu ou pela tradição a qual ele pertence, mas cada um vale pelo que ele conseguirá fazer com sua vida.

Leitura natalina: no começo do romance de W. G. Sebald, "Austerlitz" (Companhia das Letras), o narrador encontra o professor Austerlitz na sala dos passos perdidos da estação de Antuérpia. Detalhe: se o professor Austerlitz tem um interesse muito especial pelas estações de trem, seus átrios e suas salas de espera, é porque o mundo é uma gigantesca sala dos passos perdidos, em que estamos todos, sempre, em trânsito ou talvez (numa veia mais kafkiana) caminhando em círculos, angustiados, na espera de algum oficial público que nos diga, enfim, qual foi a decisão da corte.

Música natalina: "Salle des Pas Perdus", de 2001, é o primeiro CD de Coralie Clément (uma jovem cantora francesa, que canta com uma voz ofegante, estilo anos 1960-70). Na letra da música que dá o título ao CD, uma jovem escreve a um moço, propondo-lhe um encontro num café, depois de ter cruzado com ele no vestíbulo do prédio (em que ambos moram, talvez) e no átrio da estação St. Lazare. "Você sente meu perfume a cada noite, no vestíbulo do prédio", mas, mesmo assim, a gente poderia nunca se encontrar.

Precisamos aprender a viver e a encontrar os outros nas salas dos passos perdidos. Precisamos inventar a arte de viver em trânsito.

(...)

Só queria dizer isto a quem viaja no Natal: console-se, Natal é também uma festa para transeuntes."

Em 17 de dezembro de 2009
Fonte: http://contardocalligaris.blogspot.com/

Thursday, 31 December 2009

"Olhe para este dia, pois ele é a vida.

No seu curso rápido estão todas as verdades e realidades de sua existência: a bênção do crescimento, a glória da ação, o esplendor da beleza.

Pois ontem não passa de um sonho e o amanhã é apenas uma visão.

Mas o hoje bem vivido torna o ontem um sonho de felicidade e todo amanhã uma visão de esperança.

Olhe bem, então, para este dia."

Anônimo

Wednesday, 23 December 2009

Poema de Natal




"Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente."

Vinicius de Moraes

Thursday, 15 October 2009

Eu, Você, Nós 2

Viver sob o mesmo teto, na saúde e na doença, exige muito mais que amor. No modelo contemporâneo de convívio, há cada vez mais espaço para a individualidade - o casal não precisa ser aquele grude o tempo inteiro. Ainda bem.

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"Começaram a namorar quando ela tinha 15 anos de idade, ele 17. Oito anos depois, ele se formou engenheiro agrônomo. Determinada, ela o encostou na parede para que a pedisse em casamento na frente de toda a família. "Achei que nunca mais o veria, mas no dia seguinte ele apareceu em cada todo arrumado", diz a advogada Marjorie Marla de Macedo, de Florianópolis, hoje com 30 anos. Foram morar juntos quase três anos depois, antes de festejar o matrimônio. "Foi um choque. Cada um levou 100% da personalidade para dentro de casa. Mas foi determinante para sabermos que só continuaríamos com esses 100% se respeitássemos o que o outro era, sentia, pensava". Embora tenham se casado à moda antiga, não continuam juntos por conveniência, como se fazia nos velhos tempos, e sim pelas afinidades. "Sempre nos divertidos muito juntos, mas às vezes vou à praia com os amigos e ele passa horas no sítio dos pais cultivando as plantas. Damos força para que cada um faça o que gosta sem a necessidade de estar sempre juntos", afirma Marjorie. "O ser humano busca inteireza no mundo que o cerca. Isso inclui a relação com parceiros amorosos, que hoje se casam atraídos pela singularidade do outro", diz a especialista em psicologia clínica Denise Gimenez Ramos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O amor continua sendo lindo, mas é cada vez mais raro abrir mão do que se gosta em nome dele. Os casais começam a descobrir que respeitar de verdade gostos pessoais, manias, idiossincrasias - a tal singularidade - é cada vez mais uma peça importante no mecanismo que faz o casamento realmente funcionar.

Um e um são três
Estamos em tempos de ênfase ao individualismo. IPod, festas e viagens de mochilão nos põem em contato com nosso jeito single de ser. Um casal não foge à regra: é a soma de olhares de dois seres únicos. No estudo Casamento contemporâneo: O difícil convívio da individualidade com a conjugalidade, da PUC-RJ, a especialista em terapia familiar e de casal terezinha Féres-Carneiro afirma que, na lógica do matrimônio, um e um são três. A relação é determinada por dois sujeitos, duas percepções de mundo e dois projetos de vida que convivem com uma relação amorosa, uma identidade conjugal e um projeto de vida do casamento. Para Terezinha, aí está todo o fascínio e toda a dificuldade de ser casal hoje em dia. Não por nada, os casórios rareiam e os divórcios crescem. "Um casamento no Brasil dura em média dez anos porque, em geral, as pessoas não se aprofundam uma na outra", diz a terapeuta de casais Cláudya Toledo. Ser solteiro vira uma opção de vida exatamenta pela sensação de liberdade, de ser dono do próprio nariz. Para um casal criar um modelo único de convívio, com espaço para cada personalidade expressar o que sente, é preciso tempo e energia. Afinal, sentir que você se encaixa com alguém que admira soa como uma ameaça à própria identidade, já que você vai compartilhar com a pessoa momentos de uma vida que era só sua. "Tem gente que não tem paciência porque realmente dá trabalho. Mas vale a pena pelo amadurecimento, a amizade, o suporte emocional, os momentos engraçados, a nova percepção do mundo. Vale a pena pela história que você vive", diz Marjorie.

De fato, o ser humano não nasceu para viver só. Por isso, as amizades. Com os amigos, acima de tudo, trocamos ideias. Segundo o psiquiatra Flávio Gokovate, em Uma história de amor... com final feliz, nossos camaradinhas nos garantem um aconchego intelectual. O amor é diferente. Diz respeito à necessidade de ter de volta o colo materno, uma referência que fica registrada em nosso subconsciente. Com o passar dos anos e a manifestação mais internsa da sexualidade, essa sensação volta a definir as relações de um adulto. "Mesmo quando mal conhecemos a essoa escolhida, passamos a nutrir por ela um sentimento parecido com o que tínhamos por nossa mão", escreve Gikovate. Conquistado, o amor não satisfaz completamente. É como quando éramos crianças: ficar no colo da mãe era gostoso, mas significava parar de brincar e de fazer também o que nos dava na telha.

Foi assim que se configuraram os casamentos durante um bom tempo, em que pombinhos pensavam se bastar juntos no ninho de amor... E viviam, não é surpresa, uma série de momentos enfadonhos! Quem é que consegue satisfazer todas as vontades ao lado da mesma pessoa o tempo inteiro? "Acontece que a vida prática mudou muito. E, com ela, as motivações. Os casais estão juntos, mais do que tudo, para curtir a vida, para o convívio prazeroso e os projetos de vida mais voltados a atividades lúdicas. As diferenças passam a ser importante fator de irritação, ao passo que as afinidades se tornam muito mais interessantes", escreve o psiquiatra. Essa memória conjunta de vivências dá sentido à vida.

Os amigos por perto
Muita gente diz que é preciso amar a si mesmo para então amar o outro. Talvez não seja bem por aí. Gikovate descreve o amor como algo interpessoal. "É o sentimento que temos por quem nos provoca sensação de paz e aconchego", afirma em seu livro. Antes de entrar de cabeça em uma relação, cada um deve ter em mente em que pé está sua autoestima - que, para o psiquiatra, equivale a um juízo de valor, e não a um sentimento. "É uma espécie de nota que damos a nós mesmos - em geral, nota equivocada para menos". Por isso, deposita-se tanto no outro a expectativa de curar os próprios traumas, medos e desânimo. Mas também se cometem erros do outro lado. Achar bonitinha a carência rotineira do parceiro pode ser um grande problema. "É comum falar que esse é um defeito charmoso do outro, até que o tédio se instala no casamento", afirma Thiago de Almeida, psicólogo especializado em dificuldades de relacionamento amoroso. para Cláudya Toledo, não há mais espaço no casamento para pessoas que não sejam autossuficientes. "Ninguém deixa ninguém triste ou alegre. Essa questão é individual. Se estou mal, não vou chegar aos farrapos em casa para que meu parceiro me conserte. Vou fazer ioga, caminhar na praça, qualquer coisa que me faça bem. Ou vou debilitar o casamento", diz.

O mesmo vale para quem se deixa dominar pelo outro, empurrando o relacionamento por água abaixo. "Já cheguei a um ponto em que ele me manipulava, mas assim que percebi contei com os amigos e a família para voltar a ser quem eu era. Hoje, ele brinca dizendo que um dia vai me domar, o que na verdade o atrai", diz Marjorie, convencida de que dar a volta por cima, reafirmando seu jeito de ser, fortaleceu ainda mais a relação. "O que o fez se apaixonar por mim foi minha personalidade única, sui generis. Não faria sentido perdê-la". Uma de suas prioridades hoje é sair com as amigas. "Temos conversas só nossas, inclusive combinamos várias vezes de passar fins de semana juntas na praia, sem os maridos", diz a advogada. Até mesmo durante uma viagem, quando a agente de viagens Gwen Budal Arins passou dois meses na cada da mãe com o marido, ambos arrumaram tempo para seus programas solos. "Logo que conheceu meus amigos, ele já arranjou um lugar para jogar futebol toda semana, e eu tinha as amigas que não via há tempos para colocar o papo em dia", afirma Gwen.

Segundo a psicóloga Denise Gimenez Ramos, estar com os amigos no mundo moderno é vital para o equilíbrio emocional. "O casal que se fecha entra em rota de colisão. Ter privacidade com os amigos para falar bobagem e comer pipoca é importante, até porque as amizades perduram muito mais que o casamento", diz ela. Ao mesmo tempo, o espaço conquistado pela mulher no casamento propõe o ideal de igualdade. "No passado, era normal a mulher seguir em tudo e com todas as forças as decisões do marido. Hoje, os homens reconhecem sua realização pessoa, seu êxito profissional, suas qualidades, que a distinguem dele", afirma o consultor Vital Didonet, de Brasília, que completou 25 anos de casamento em 2008. Isso inclui a liberdade individual, essencial a todos em uma relação.

Detalhes de nós dois
Na hora de juntar os trapos, ter ajuda para botar a casa em ordem também é crucial para o bom convívio e, sem dúvida, mexe com o jeito de ser de qualquer um. Marorie nunca se deu bem com os trabalhos domésticos. "De repente, casei e tive que cuidar de tudo", diz. Mesmo depois de anos de namoro, o casal entrou em conflito por causa disso quando se viu sob o mesmo teto. "Ele vivia na frente do computador por causa da carreira acadêmica e eu sempre dizia que ele não trabalhava e, ainda por cima, não me ajudava em casa. Foi marcante quando disse o quanto ficava magoado comigo por não respeitar sua profissão. Tive que retroceder", diz a advogada. Ao pôr as cartas na mesa, dividiram as tarefas como rpeparar a refeição e lavar a louça. Além disso, ela passou a deixá-lo em paz ao vê-lo no computador, pois sabe o quanto precisa se concentrar nas pesquisas. "Quando esclarecemos as diferenças, é onde fica a singularidade de cada um. É preciso ter feeling para saber quando vale a pena mudar de atitude", diz Marjorie. As fraquezas nunca vão deixar de aparecer. Afinal, somos humanos. Mas, quando um casal prioriza o respeito às singularidades, a dependência emocional dá lugar à amizade, ao erotismo e aos planos em comum, construídos pelo olher que cada um lança na relação. "Os dois se apoiam, ajudam-se, fortalecem-se, consolam-se, mas sempre olhando para o que está adiante deles", diz o consultor Didonet. Juntos, sim. Grudados, jamais."

Texto Débora Didonê
Fonte: Revista Vida Simples, Edição 84, Outubro de 2009

Tuesday, 13 October 2009

Amor perfeito

Namoros e romances interrompidos provocam uma irritante pergunta anos depois: “Como seria a minha vida se tivéssemos ficado juntos?” Novos relacionamentos não apagam a lembrança interrogativa. A marca. O número do telefone na agenda. A ausência de uma última chance. A esperança de um encontro acidental.

O amor não se encerra, se abandona.

Quanto maior a chance de vingar o amor, mais se cria um jeito de interrompê-lo.

São detalhes bobos e tremendamente ridículos que costumam separar.

Um pouco de esforço, um pouco de paciência, e nada teria acontecido.

O orgulho é um péssimo confidente e não deixa voltar atrás.

O que é forte perturba, não acalma.

Não conversei até esse momento com nenhum apaixonado com a cabeça no lugar. Todos estão sem cabeça e uma boca imensa a murmurar sozinha.

Assim como os separados têm suas razões, e concordo com os dois lados.

Mas por que os separados têm tanta necessidade de explicar o fim do namoro ou do casamento? A gente só explica o que não conseguiu entender.

Minha culpa é explicativa; minha confiança é lacônica.

O amor que tinha tudo para ser ideal – e não foi – sofre do “passado do umbigo”.

O passado do umbigo é acreditar que a época mais feliz já aconteceu entre os dois e não há maneira de repeti-la. Concordo: não há como repeti-la.

Só que o passado do umbigo não permite que a felicidade cresça de outra forma, diferente da circunstância anterior.

A mínima mudança de repertório, e ambos ficam chateados. Se mudaram de emprego, mudaram de idéias, mudaram de rotina. Por que não podem mudar a forma de amar?

Termina-se prisioneiro do início da relação e não se busca favorecer a diferença, e sim insistir, em grau da chatice máxima, com a semelhança.

Outro sintoma que enfraquece o amor é a aparência diante dos colegas e conhecidos.

Quando o par escuta: “Vocês formam um casal perfeito”, cuidado!, esse elogio é perigoso. “O que queremos?” assume a condição deturpada de “o que eles vão pensar?”.

O casal passa a viver mais para fora do que para dentro de casa. A expectativa dos outros contamina a pureza do trato, do convívio, a solidão de raríssimas estrelas e terra escura.

Namorar assume o despropósito de desfilar.

Há tanta gente metendo o bedelho na história que o par não consegue escutar suas vozes e vontades.

Casal perfeito é o que se separou alguma vez para voltar mais sereno e apaixonado.

(Fabrício Carpinejar, em O Amor Esquece de Começar)

Sunday, 4 October 2009

As mágoas vão rolar

Como lidar com a ofensa e o perdão? Será que perdoar quem nos magoou é o caminho para a paz interior?

"A não ser que você seja um anjo imaculado e habite uma dimensão celestial, longe das imperfeições e das mazelas humanas, você já teve que perdoar alguém e também já precisou ser perdoado.

Eu diria que é improvável cruzar a vida sem prejudicar e ser prejudicado, magoar e ser magoado, decepcionar e ser decepcionado. Com ou sem intenção, nas relações humanas, esses verbos malquistos algum dia acabam sendo conjugados. E, nesses casos, o substantivo perdão tem de ser chamado a compor o texto, senão a vida não completa sua sintaxe.

O perdão é, sim, um importante meio de obter paz de espírito, ainda que não seja o único. Mas, como todos os outros recursos que pavimentam o caminho que leva ao estado de graça interior que, por sua vez, permite ao humano usufruir da tranquilidade de conviver consigo mesmo, o perdão verdadeiro é difícil de ser praticado.

Perdoar é o ato de libertar o outro da culpa, mas é mais que isso. Em sua função libertária, o perdão liberta quem o pratica. É um ato de grandeza de espírito, que representa, acima de tudo, uma doação.

For-give, vor-geben, per-dón, per-dão. Praticamente em todos os idiomas a palavra perdoar obedece a sua origem do latim vulgar perdonare, que é formada pela junção do prefixo per (através de ) com a palavra donare, que representa o ato de doar ou, melhor ainda, dar-se.

Através do perdão a pessoa doa o que há de melhor em si mesma - a compreensão, a compaixão e a esperança. Você me ofendeu e me magoou, e eu compreendo que você falhou porque é humano, compadeço-me por seu arrependimento e tenho a esperança de que tal não se repetirá. Por isso, o perdoo. Simples e belo. Mas... sempre possível? Essa é a verdadeira questão existencial do perdão.

Qual o melhor caminho para compreender o perdão?
"Errar é humano, perdoar é divino", dito o ditado. Mas ele está um pouco ultrapassado. Há tempos que o conceito de perdão abandonou o céu angelical para vagar em terra mundana. O principal motivo é que sem ele a vida em comunidade não seria possível, pois cada ofensa geraria uma inimizade. O perdão não é apenas uma atitude, é uma qualidade necessária à elevação dos espíritos, como demonstram várias áreas do pensamento humano que já se debruçaram sobre ele, como a filosofia, a psicologia e a religião.

Na Bíblia, o perdão é tema recorrente. No Velho Testamento, em Levítico (16:29-31), encontramos que Moisés institui um dia dedicado à purificação dos pecados. Considerado como um "estatuto perpétuo", tal data é respeitada pelos judeus, que a chamam de Yom Kippur - o dia do perdão. A importante ocasião ocoore logo após o Rosh Hashanah - o ano-novo judeu. Pedagógica correlação, pois esclarece que não se deve iniciar um novo ciclo sem perdoar e obter perdão.

Moisés havia subido o monte Sinai para ter um encontro com o Divino, de quem recebeu as tábuas com os Dez Mandamentos. Ao descer, a decepção. Encontrou os hebreus adorando uma imagem, uma estátua de bezerro, ignorando seus conselhos de que só devemos adorar a Deus. Em sua revolta, atirou as tábuas ao chão, quebrando-as, e não lhe restou saída senão voltar à montanha e pedir novamente as tábuas a Deus, implorando-lhe, também, o perdão. Ele então instituiu aquele dia para marcar o perdão concedido pelo Senhor à iniquidade de seu povo e a sua própria ira.

As orações e o jejum praticados no dia do perdão, além do compromisso de o ofensor não mais cometer as transgressões novamente, são alguns dos passos seguidos por aquele que quer limpar suas mágoas para começar purificado ano novo.

Foi nesse dia, em que a noção de perdão foi pela primeira vez esboçada como um importante valor humano, e também ali, dentro dessas mesmas raízes judaicas, que o cristianismo brotou.

O Pai-nosso, a oração mais importante entre os cristãos - que teria sido ensinada pelo próprio Cristo -, considera o perdão uma forma de estabelecer uma relação com Deus e com os homens. "Perdoai nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido", diz uma passagem, antes de pedir força para evitar as tentações e proteção contra os infortúnios da vida. Sim, o perdão precede o poder e a segurança.

Por que o perdão faz bem a quem perdoa e beneficia quem é perdoado?
Entre os filósofos, o perdão também é tema ancestral. Foi, só para ilustrar, assunto de simpósios, os encontros em que, entre um gole e outro de vinho, os antigos gregos se punham a discutir as grandes questões que inquietam o espírito humano, como a morte, a coragem e o amor. "Só quem tem a capacidade de perdoar conquista o direito de julgar", disse Sócrates num desses momentos de sabedoria e embriaguez em que a civilização ocidental foi gestada.

Contemporâneo de Cristo, o romano Sêneca introduziu o perdão na esfera do estado. Em sua obra, Tratado sobre a clemência, o tutor de Nero apresentou a arte de perdoar como a principal arma para o governante lidar com a justiça e firmar-se como estadista. Segundo o filósofo, praticar atos clementes seria exercitar a temperança do gênio, a tranquilidade do espírito e a virtude do erudito. O perdão real possibilitaria a coesão do estado na sociedade, atendendo às diferentes vontades das classes, ao mesmo tempo que serviria como excelente instrumento jurídico, permitindo a aplicação da pretensa justiça com moderação. Apesar disso, ele mesmo foi vítima da falta de perdão. Desconfiado de sua traição, Nero o condenou à morte.

Depois de muitos séculos e de muitas reflexões e textos sobre o assunto, a filósofa alemã Hannah Arendt, que migrou para os Estados Unidos com a ascensão do nazismo, escreveu em seu livro A condição humana, que o perdão é uma resposta libertária: "o perdão é a única forma de reação que não 're-age' apenas, mas age de novo e inesperadamente, sem ser condicionada pelo ato que provocou e de cujas consequências liberta tanto quem perdoa quanto o que é perdoado (...) é a liberação dos grilhões da vingança".

Com essas palavras, ela faz uma conexão com a psicologia, que busca a qualidade do pensamento e a calma das emoções, e diz que perdoar faz bem porque livra a pessoa das amarras do ódio e da injustiça. Perdoar beneficia quem é perdoado, mas favorece principalmente quem perdoa. Acontece que perdoar é uma atitude, mas primeiro é um sentimento. Antes de perdoar com as palavras, é necessário perdoar com a mente e com o coração, senão o efeito não é o mesmo, fica pela metade, vira falsidade. É preciso coragem para perdoar de verdade.

É de autoria de Freud o notável texto "Repetição, lembrança, translaboração". Nele, o pai da psicanálise propõe que o inconsciente, que aprisiona a pessoa no passado e não permite que ela conviva em harmonia com o presente nem consiga ver esperança no futuro, seja examinado com coragem e grandeza suficiente para produzir o mais importante dos perdões: o perdão a si mesmo.

E quando a pessoa não merece perdão?
A verdadeira questão filosófica do perdão é a opção de aplicá-lo. Mais importante que perdoar é decidir perdoar com convicção, o que implica visitar os princípios da justiça.

No casamento de sua filha, meu amigo José Ernesto protagonizou um dos mais comoventes momentos que eu já tive a oportunidade de presenciar. Ao dizer aos noivos o que ele lhes desejava, aconselhou: "Sempre que possível, escolham o perdão. Sempre que necessário, escolham a justiça".

Em duas frases, ele sintetizou a essência das relações humanas que valem a pena. As relações devem ser dotadas de valores, não apenas de objetivos comuns. Quando as pessoas se juntam apenas por motivos utilitários, remetem sua relação à época dura das cavernas, em que tudo era permitido em nome da sobrevivência. Casamentos, amizades, empresas, agremiações políticas - qualquer tipo de encontro entre duas pessoas tem um objetivo que as mantenha unidas, mas se for apenas isso a uni-las - objetivos, metas, destinos -, pessoas não serão pessoas, mas meros componentes de uma engrenagem mecânica. Ao humano, competências conferem utilidade, valores providenciam dignidade.

Não há vida digna sem justiça, e o perdão é parte dela. Parte. Perdão não é justiça. Perdão é decorrente da justiça. E praticar justiça remete a pessoa à tarefa de julgar, provavelmente a mais ingrata das missões humanas, pois significa entender os motivos de quem fez o que fez, considerar os efeitos do que foi feito e decidir sobre a pena justa e conveniente, que pode ser, entre outras, o perdão.

É possível perdoar o assassino frio, o estuprador impiedoso, o corrupto contumaz? É justo perdoar o juiz da Inquisição, o patrocinador do Holocausto, o instaurador do Apartheid? Ora, sem considerar a justiça, o perdão é obsceno; sem contemplar o perdão, a justiça é malévola; afinal, a justiça é uma necessidade, o perdão, uma possibilidade.

Ainda assim, mesmo considerando que seja pesado julgar, difícil ponderar os fatos envolvidos, doloroso relevar mágoas, impossível esquecer ofensas, o ato de perdoar é grande, digno e belo. Até porque, ao julgar alguém, é conveniente fazer algum julgamento de si mesmo, para, ao perdoar o outro, guardar para uso próprio um pouco do perdão. Porque você, eu, qualquer um, se viveu uma vida, precisará ser perdoado por não tê-la aproveitado melhor."

Texto: Eugenio Massuk
Fonte: Revista Vida Simples, Outubro 2009, Edição 84

Wednesday, 30 September 2009

A era do tô me achando

Por que necessitamos cada vez mais da aprovação, do amor, da admiração e (até) da inveja dos outros? Entenda como funcionam os mecanismos da vaidade - e saiba como se imunizar para não ficar se achando a última bolacha do pacote.

"Bacanas teus óculos", falei. Leves, classudos, num tom esportivamente escuro, cada lente com uma sombra que subia de baixo para cima, tornavam misterioso o olhar do amigo, um jovem editor. Comentei que nunca o tinha visto de óculos. Ele devolveu: "Pois é, mas eu estava com a vista cada vez mais cansada, até que fui ao oculista e ele me disse que precisava usar. Dois graus de miopia. Excesso de leitura. Fazer o quê...", compungiu-se, o olhar vago, empurrando o par de lentes nariz acima com um charme intelectualmente sofrido. Mês depois, encontrei uma amiga cujo pai é o oftalmologista. Entre anedota e outra, ela me contou que um curioso cliente do pai havia pedido um modelo de óculos em grau. É, era ele mesmo - o editor.

Vivemos tempos curiosos. A cada segundo, e através de todos os meios possíveis, somos expostos aos corpos mais perfeitos, às biografias mais irretocáveis, à pose generalizada de famosos e anônimos. Vaidade pura. Mas um momento: você já experimentou sair por aí todo mulambento, comparecer despenteado a uma entrevista de emprego, esconder de parentes e amigos aquele êxito nos estudos? Impossível, não? Porque, hoje, não ter vaidade - não ter o hábito de apregoar aos quatro cantos, reais e virtuais, o quanto você pode ser atraente, sensacional e único - parece ser um dos maiores pecados da nossa era, esse tempo em que todo mundo parece estar "se achando".

(...)

Vício letal
Parâmetro fácil, mas vaidade, como parâmetro norteador desta época, é algo bastante volátil para definir. Vai longe o tempo em que ser vaidoso bastava para condenar um cidadão, ou editor, ao inferno. No início da cristandade, a vaidade, sob a alcunha de vanglória, foi pecado capital; por volta de 1500 integrou a lista na forma de orgulho ou soberba; ainda é a mais diabólica contravenção para os cristãos ortodoxos. segue relacionada à Prostituta da babilônia no Apocalipse. Foi o que conduziu Lúcifer, mais belo dos anjos, do lado direito do Senhor aos portões do inferno, por rejeitar a imagem de deus em benefício da própria. (...)

Pelo Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, inexplicavelmente esgotado desde 1984, "vaidade" tem 71 substantivos agins, incluindo "ânsia incontida de despertar a admiração", "parlapatonice", "exibicionismo", "pretensão", "megalomania", "egoísmo", "inchaço" e, claro, "narcisismo". (...)

Meu sinônimo favorito, o que ajuda a iluminar nosso tempo, é "inchaço". Até por causa da característica física da palavra - como se o vaidoso estivesse "cheio de si". Mas que seria concretamente esse "si"? O ser ou o nada? Batom, botox ou fotos bacanas no Facebook? Sapatos Gucci, um iPod novo ou um belo currículo na Casa do Saber? O cabelo do Justus, a peruca da Dilma, os pneus de Ronaldo Fenômeno, o bigodão de José Sarney, o retrato de Dorian Gray? A obsessão pela juventude dos sessentões vampirescos atrás das menininhas, a susanavieirização do mulherio? A vaidade sempre seria ruim, ou poderia ser um componente positivo da competitividade, um estímulo caprichoso à autoafirmação? Ou seria mesmo um vício - e um vício letal, matando tanto anônimos que tentam ficar lindos na mesa da lipoaspiração quanto os Michael Jacksons que lutam pela glória através de remédios contra a dor de horas de torturantes exercícios físicos?

Narcisismo epidêmico
Óbvio que, na sua ampla e incansável psiquiatrização do cotidiano, os norte-americanos já tratam a vaidade como patologia. Autora de Generation Me, a psicóloga Jean Twenge crê que a autoconfiante geração nascida a partir de 1980 - que passa horas lambendo as migalhas da própria existência entre o Facebook e o MySpace - é muito mais narcisista que as gerações anteriores.

Twenge trabalhou com o colega W. Keith Campbell no recém lançado best-seller a analisar os miolos moles dos ianques: The narcisism epidemic. Para a dupla, a coisa ficou preta e o espelho trincou - e o resultado, ora vejam, é o bode expiatório da vez, a malfadada crise econômica.

Parece meio infame, tanto quanto o transtorno obsessivo narcisista. Mas faz setnido - sobretudo para a alma norte-americana, sempre tão disposta a diagnosticar-se e tratar-se e partir para o próximo transtorno como se não houvesse amanhã, caso a doença mexa no bolso. Em entrevista à revista de educação US World Report, Campbell afirma ter comparado as pesquisas com jovens entre narcisistas e obesos: "Os resultados foram bem semelhantes", diz. Numa amostragem de 35 mil jovens, a dupla de psicólogos descobriu que 6% sofriam de transtorno obsessivo narcisista. Contudo, somente 3% das pessoas acima de 65 anos tinham esse transtorno. "Um dado a comprovar que estamos em uma epidemia fora de controle", afirma o psicólogo.

Ele enumera quatro causas: a educação dos pais, a cultura de celebridades, a mídia e o crédito barato. "Muitos pais tratam seus filhos como reis", diz. "Reality shows são altamente narcisistas, e supõe-se que sejam a vida real; neles, subentende-se que o narcisismo é algo normal". Campbell é especialmente duro com a rede. "As pessoas nunca falam que leem Guerra e Paz, de Leon Tolstói, no Myspace. Em vez disso, colocam fotos sensuais, a coleção de amigos, as músicas legais. Para piorar, crédito barato faz com que os jovens gastem para se parecerem melhores do que realmente são. Têm coisas que não fizeram força nenhuma para pagar". Claro que esse argumento financeiro tem muito a ver com a realidade americana, onde bolhas econômicas costumam ser uma rotina - mas, afinal, o mundo está cada vez mais parecido com os Estados Unidos.

Vaidosos anônimos
Provavelmente a valorização do discurso da autoestima e a febre da autoajuda são culpadas dessa apoteose ao me-achismo. Porém, como depois da tempestade sempre vem a ambulância, conforme deduziria o pensador Vicente Matheus, imagino que daqui a alguns anos a loucura narcísica dará valor à autocasca-de-banana, ao autofail: aprenderemos a puxar em público o nosso próprio tapete. (...). Esse culto desenfreado ao amor-próprio ainda vai produzir coisas estranhas... Em breve, abrirão inscrições para os Vaidosos Anônimos. Pode escrever.

Por enquanto, vamos vivendo a grande época da vaidade. A imodéstia saiu do armário e está toda serelepe (...).

Na outra ponta do estudo do narcisismo, o filósofo francês Giles Lipovetsky faz uma abordagem ao mesmo tempo eufórica e catastrófica - espelho fiel do espírito da época, a que ele nomeia de forma eloquente, ao gosto dos franceses, como A Era do Vazio. (...) Em O Império do Efêmero, Lipovetsky faz uma leitura bastante original da cultura contemporânea através da importância cada vez mais crescente da moda. Muito gaulesmente, diz que a moda - especificamente a florescida em Paris - condensa na ideia de individualidade os ideais da Revolução: liberdade, igualdade e fraternidade.

Solidão em massa
"A promoção das frivolidades só se pôde efetuar porque novas normas se impuseram, desqualificando o culto heroico de essência feudal e a moral cristã tradicional, que considera as frivolidades como signos do pecado do orgulho", afirma Lipovetsky. "Da ideia de altivez relativa à dignificação das coisas terrestres saiu o culto moderno da moda" (...). O filósofo não separa a moda - e, assim, o fascínio pelo Novo - da ideologia individualista, do culto ao bem-estar, aos gozos materiais, ao desejo de liberdade, à vontade de enfraquecer a autoridade e as coações morais, ao triunfo da ideologia do prazer.

No entanto, Lipovetsky lembra que a busca dos valores individuais traz um fenômeno ainda mais estranho que o estudado pelos senhores psicólogos acima: a "solidão em massa" refletida no número cada vez maior de suicídios. "A era da moda consumada é inseparável da fratura na comunidade e do déficit de comunicação: as pessoas se queixam de não serem compreendidas ou ouvidas, de não saberem se exprimir" - uma festa de autistas que lembra um pouco uma rave impulsionada por ecstasy, ou uma sessão furibunda de Twitter movida a banda larga.

O pensador francês sugere que vivemos um segundo momento da Era do Vazio, em que "a busca da riqueza não tem nenhum objetivo senão excitar admiração ou inveja". Nesse mundo ultracompetitivo, o Outro só faz sentido se viabilizar o sucesso do Eu. No igualmente sombrio e triunfante A Era do Vazio, Lipovetsky aproxima os conceitos de vacuidade e vaidade, vazio e Narciso: "Que outra imagem é melhor para significar a emergência de individualismo na sensibilidade psicológica, centra sobre a realização emocional de si mesma, ávida de juventude, de esportes, de ritmo? (...) O neonarcisismo é psicologia pop: a expressão sem retoques, a prioridade do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença em relação aos conteúdos, a assimilação lúdica do sentido, a comunicação sem finalidade e sem público, o remetente transformado em seu principal destinatário".

Em uma imagem que resuma tudo: o meu elegante amigo observando-me superior por trás das lentes falsas, feliz da vida por enganar a si mesmo.

Texto: Ronaldo Bressane
Fonte: Revista Vida Simples (Editora Abril)

Você precisa estar no centro das atenções (médicas) se...
  • Possui senso grandioso de autoimportância (espera ser reconhecido como superior sem que tenha feito ações à altura)
  • Preocupa-se com fantasias de sucesso (poder, brilho, beleza ou amor ideal ilimitados)
  • Acredita que é especial (e que só pode ser compreendido por outras pessoas especiais ou de status elevado)
  • Precisa de admiração excessiva
  • Sente-se em posição de possuir direitos (ou seja, tem expectativas além do razoável de receber tratamento favorável ou de aceitação automática das suas expectativas)
  • Aproveita-se de relacionamentos interpessoais (manipula os demais para atingir seus próprios objetivos)
  • Não demonstra empatia (não tem disposição para reconhecer os sentimentos e as necessidades alheias ou identificar-se com isso)
  • Muitas vezes inveja os demais (e/ou acredita que os outros o invejam)
  • Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes ou insolentes
  • Leu este teste observando-se ao espelho (brincadeira...)

Nota da autora do blog: Infelizmente, é impossível ler essa lista sem reconhecer alguns destes comportamentos em si mesmo. E ainda mais triste que isso, é a sensação de conhecer pelo menos duas pessoas relativamente próximas a mim que poderiam ser descritas pela lista completa. E não falo apenas de adultos da minha idade, mas particularmente da nova geração de adolescentes, o que me faz acreditar na epidemia de narcisismo.

Friday, 11 September 2009

Chovendo desgraças

"O chuveiro tem temperamento. Alguns ligam, outros nos devolvem a fé.

A ducha de casa funcionava perfeitamente com exceção de um detalhe: uma gota fria no meio da enxurrada quente. Não sei de onde vinha, como vinha.

Era um pingente de lago russo.

No inverno, aquela gota gerava um maremoto de raiva. Quebrava o ritmo aconchegante do calor, desconcentrava o apetite. Eu deixava de saborear o resto da torrente para analisar sua origem intrusa, intrigado com o milagre.

De que maneira a gota furava o aquecimento?

A gota dava um tabefe e sumia. A cada dois minutos. Cronometrava, contava alto.

Mais certeira do que cuspe de calha, de ar-condicionado. Tumtum nas costas. Não havia como escapar dela. Usei touca de plástico, óculos de mergulhador, equipamentos submarinos. Não surtia efeito, o minúsculo líquido prosseguia com sua acupuntura autodidata.

Tremia ao sair do banho. Sua queda na carne retirava o luxo do banheiro vedado, trancado, com estufa. Era uma porta aberta no corpo.

Acabava com minha custosa técnica de abrir a torneira no ponto certo, sem a luz despencar. Complicado atingir o limite ideal do registro, firmar o estalido de cofre, acertar a temperatura.

Eu me preparava para a surpresa. Aumentava a sensibilidade para reconhecê-la. Fechava os poros para abri-los assustados.

Vinha como um remédio de criança, sôfrego. Uma gota de paralisia. Caía lentamente, separando as vértebras.

Foram três anos lutando contra o pingo e perdendo. Exigia uma atitude aos pais, conversava com os três irmãos e ninguém notava sua aparição. Não trocaram de aparelho. Ele permaneceu, eu é que abandonei a casa.

Minha adolescência durou menos do que o chuveiro elétrico.

Dessa guerra caseira, herdei a sina de não abandonar problemas. Se há uma dificuldade, tenho que resolvê-la no ato. Paro tudo o que estou fazendo e tento consertar. A leve irritação vira ofensa pessoal.

Não suporto uma conta em aberto, uma tarefa inacabada, uma inimizade; maltrato-me até resolver as pendências. Mas sempre existe um pedido, uma nova reclamação ou um desentendimento. Ter pressa é não ter paz.

Bastaria seguir adiante para me acostumar. Mas não, meu medo de esquecer me impede de lembrar. Fico travado, em greve, batendo na mesma tecla, insolente, insatisfeito, renitente, sem sair do lugar do incômodo.

Elimino a sensação de toda água quente que passou pelos ombros para valorizar uma bolha gélida. Faço com que todos participem de minha mobilização imaginária. Se alguém ficar de fora será mais uma gota a ser combatida.

É uma pequena pontada que transformo em dor que elevo em trauma que glorifico em incompreensão.

Interrompi vários momentos bons de minha vida pela birra com um detalhe.

O que me leva a crer que não procurava a falha, criava a falha, me dedicava para que o mal-estar prosperasse e justificasse o meu empenho na briga.

Depois do escândalo, preparava outro escândalo para compensar o despropósito da raiva. Não desistia de argumentar para sustentar o erro.

Não é fácil me desligar.

A gota acentuava tão-somente a minha frieza."

Fabrício Carpinejar
http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/

Wednesday, 5 August 2009

"O amor é uma experiência conjunta entre duas pessoas (mas isso não significa que é uma experiência parecida para as duas pessoas envolvidas). Existe o amante e o amado, mas esses dois vêm de países diferentes.
(...)
O valor e a qualidade de qualquer amor é definido só pelo amante. É por isso que muitos de nós preferem amar do que ser amado. Quase todo mundo quer ser o amante.
(...)
O amado teme e odeia o amante e com a melhor das razões. Pois o amante está sempre tentando desnudar quem se ama. O amante deseja qualquer possibilidade de relação com a pessoa amada, mesmo que essa experiência possa lhe trazer apenas a dor".

extraído de The Ballad of the Sad Café
de Carson McCullers

Monday, 3 August 2009

O ciclo da auto-sabotagem (2a parte)

Livro de Stanley Rosner e Patricia Hermes

"A escolha do parceiro do casamento é, muitas vezes, a representação da relação mal resolvida com um dos pais, aquele que não conseguiu atender às necessidades do filho. A escolha inconsciente do parceiro representa uma tentativa de "mudar aquele pai/mãe", de conseguir o amor e o carinho que faltou. O resultado se apresenta na forma de queixas do tipo: "não foi isso que eu disse", "ele não me defende". Isto, por sua vez, gera lutas pelo poder, batalhas de vontades, brigas sobre quem está certo e quem está errado. Geralmente, o que vem a seguir é aquela sensação silenciosa, mas bastante incômoda, de estar pisando em ovos, para não desequilibrar a balança.

Às vezes, há uma vaga consciência do que está acontecendo, pensamentos confusos de que o cônjuge está se comportando como o pai/mãe frustrador, mas tais pensamentos são geralmente repelidos. Porque fracassamos no reconhecimento da dinâmica da interação com o cônjuge e porque não queremos nos lembrar inteiramente do impacto prejudicial que aquele pai/mãe teve sobre nós, tendemos a repetir muitas vezes a relação. Temos a expectativa de que, da próxima vez, seremos bem-sucedidos naquilo que queremos. Vivemos com a esperança de que encontraremos, no casamento, a satisfação que não encontramos até agora.

Um outro problema é como os indivíduos reagem ao trauma. A interrupção na comunicação, apresentada de modo tão comum como a causa dos problemas nos relacionamentos, é, na realidade, parte da estrutura de defesa em resposta ao trauma. Não é apenas a interrupção na comunicação verbal, mas na comunicação emocional também. Há um entorpecimento dos sentimentos e da sensibilidade. "Se você não estende a mão para mim, por que eu devo estender a minha para você?" O resultado é que a relação baseia-se em tentativas, na qual cada indivíduo sente necessidade de pisar leve, para evitar qualquer situação incômoda ou real. Com medo de represália, medo da própria raiva, a tendência é isolar-se, calar-se tanto verbalmente quanto emocionalmente.
"Ela não fala comigo" é uma queixa comumente ouvida. Esse estado de alienação é baseado no medo de que o cônjuge se irrite se o outro expuser seus sentimentos. Esse medo também é expresso em termos de fragilidade: "não posso dizer nada, porque ela vai desmoronar, ela é tão sensível". Então o distanciamento continua e fica cada vez maior.
Não expressar sentimentos e reações em palavras, por sua vez, leva a pessoa a não expressão sentimentos em comportamentos e em reações emocionais. "Por que eu deveria dizer como me sinto? Ele não vai me ouvir. Não vai fazer a menor diferença".

Se um dos parceiros arriscar seus medos e reconhecer que a frieza é em razão da evitação da agressão ou da possibilidade de se magoar, então a barreira do silêncio pode começar a ser rompida. É necessário reconhecer que o medo da raiva e o medo da fragilidade são aprendizados trazidos de relacionamentos traumáticos anteriores. "Ela não é minha mãe, que não me defendia quando eu precisava". "Ele não é meu pai, que me fuzilava com os olhos se eu expressasse minha raiva".
Ao alcançar esse reconhecimento, é possível mudar relacionamentos atuais.

A compulsão à repetição é uma forma de traduzir em ação um trauma por meio de um comportamento destrutivo, embora quase sempre o indivíduo não tenha noção de que é exatamente isso que está fazendo.

Há uma grande diferença entre estar em situações difíceis que ocorrem sem que a pessoa tenha consciência do que está acontecendo e o reconhecimento de que há alternativas e que é possível efetivar mudanças em comportamentos de auto-sabotagem. A diferença, a diferença vital, é o reconhecimento. Freud escreveu: "Na verdade, eu sempre soube disso; só que isso não me passava pela cabeça".

Sunday, 2 August 2009

O ciclo da auto-sabotagem

Livro de Stanley Rosner e Patricia Hermes

Por que repetimos atitudes que destroem os nossos relacionamentos e nos fazem sofrer


"Há uma vitória e uma derrota - a maior e a melhor das vitórias, a mais baixa e a pior das derrotas -, que cada homem conquista ou sofre não pelas mãos dos outros, mas pelas próprias mãos." ~ Platão, Protágoras


"Recebi em meu consultório um homem para quem tudo parecia correr bem. Louis era um quarentão, um homem de negócios que aparentava ser bem casado, o pai de um grande garoto, como chamava o filho de 10 anos, bem-sucedido na vida pessoal e profissional. Mas me procurou porque estava inquieto, pensando no sentido da vida. Estava tendo um caso com uma mulher que, admitiu, não amava. Mas, mesmo sem amá-la, estava prestes a deixar sua família. Ele não entendia o próprio comportamento, mas sabia que alto estava errado. Além disso, havia jurado que nunca faria com sua família o que o pai fizera com ele. Ele revelou que seu pai havia abandonado a família quando ele tinha a mesma idade do filho - 10 anos. E seu avô paterno também largou a família quando o filho tinha 10 anos. Ele estava prestes a se tornar o terceiro pai na família a abandonar a mulher e os filhos.

Encarar o ciclo de repetição é o primeiro passo para ter algum controle sobre o que a pessoa está provocando inconscientemente.

Pode parecer implausível acreditar que um indivíduo continue agindo exatamente da maneira que o faz sofrer. Concordo que seja um contra-senso. No entanto, é plausível e possível. E ocorre constantemente.

O que é importante sinalizar aqui é que essas vidas são infernizadas e destruídas pela compulsão à repetição. Por compulsão, estou me referindo aqui a um tipo de repetição menos instintiva, uma necessidade inconsciente de repetir muitas vezes um comportamento, um impulso de levar adiante um ato, não importando as consequências, mesmo que destrua a vida e a felicidade de alguém.

Existe um momento em que a pessoa consegue reconhecer essas repetições? É possível se dar conta disso e o ciclo ser rompido realmente? Acredito que as respostas a essas questões sejam "sim". Embora não seja uma tarefa fácil. Indivíduos que passaram a vida construindo uma concepção sobre si e sobre o mundo ao redor de uma determinada percepção equivocada podem ter medo de contestar aquela visão, e isto é compreensível.

É um medo real e imenso, porque envolve a única coisa que precisamos e pela qual ansiamos - o amor.

(...)
A maioria das crianças pequenas acredita que o mundo gira ao seu redor. Com o desenvolvimento normal, esse sentimento gradativamente se dissipa. Entretanto, quando certos pais colocam os filhos no meio de suas próprias vidas e também de seus próprios conflitos, esse processo normal pode ser interrompido. A consequência é que muitas dessas crianças desenvolvem um forte senso de responsabilidade, culpa e de recriminação a si mesmas. Elas recebem de herança uma consciência severa e punitiva, dúvidas sobre si mesmas e falta de confiança. Se algo vai mal com seus pais ou com sua família, acreditam que, além de ser culpa delas, é também sua responsabilidade corrigir os erros e consertar o estrago.

Sepultar sentimentos traumáticos, experiências e memórias de sofrimento acontece a muitas pessoas. Entretanto, enterrar essas experiências não significa que elas estejam mortas. Pelo contrário, elas se incorporam, tornam-se parte indelével da imagem que as pessoas têm de si. Consequentemente, a pessoa não sabe por que age de uma determinada forma, não consegue explicar. Surge uma lacuna entre o que se sente e a base de tais sensações.

A criança que vive no adulto, a criança que sepultou seu passado traumático, revive esse fato várias vezes, tentando inconscientemente dominar aqueles eventos incontroláveis. A finalidade, portanto, é facilitar a mudança, fazer com que chegue à consciência, ajudar a criança indefesa a se tornar o adulto livre, com o controle da própria vida. Com consciência e memória, esses eventos podem ser encarados de modo diferente.

Às vezes, é preciso chegar ao sofrimento para que os problemas sejam resolvidos."

Wednesday, 5 November 2008

Morre lentamente...

"...quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos.
Quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
Ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar."

Pablo Neruda

Tuesday, 30 September 2008

A felicidade e o casal

“Lembrem-se de Proust em Em busca do tempo perdido: ‘Albertine presente, Albertine desaparecida...’ Quando ela não está presente, ele sofre atrozmente: está disposto a tudo para que ela volte. Quando ela está presente, ele se entedia: está disposto a tudo para que ela vá embora. Não há nada mais fácil do que amar quem não temos, quem nos falta: isso se chama estar apaixonado, e está ao alcance de qualquer um. Mas amar quem temos, aquele ou aquela com quem convivemos, é outra coisa! Quem não viveu essas oscilações, essas intermitências do coração? Ora amamos quem não temos, e sofremos com essa falta: é o que se chama de um tormento amoroso; ora temos quem já não nos falta e nos entediamos: é o que chamamos um casal. E é raro que isso baste a felicidade.

É o que Schopenhauer, como discípulo genial de Platão, resumirá bem mais tarde, no século XIX, numa frase que costumo dizer que é a mais triste da história da filosofia. Quando desejo o que não tenho, é a falta, a frustração, o que Schopenhauer chama de sofrimento. E quando o desejo é satisfeito? Já não é sofrimento, uma vez que já não há falta. Não é felicidade, uma vez que já não há desejo. É o que Schopenhauer chama de tédio, que é a ausência da felicidade no lugar mesmo da sua presença esperada. Você pensava: ‘Como eu seria feliz se...’ E ora o se não se realiza, e você é infeliz; ora ele se realiza, e você nem por isso é feliz: você se entedia ou deseja outra coisa. Donde a frase que eu anunciava e que resume tão tristemente o essencial: 'A vida oscila pois, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento ao tédio'. Sofrimento porque eu desejo o que não tenho e porque sofro com essa falta; tédio porque tenho o que, por conseguinte, já não desejo.”

André Comte-Sponville, em A Felicidade, Desesperadamente

Sou uma leitora assídua do fotolog de Carol Cigerza. Fui apresentada a esse livro do André Comte-Sponville através dessas leituras. E esse trecho do livro, que ela publicou no fotolog, é muito apropriado e atual para ser ignorado. Então resolvi postar aqui também.

Eu estou construindo aos poucos a minha teoria de que o problema é que nós colocamos a felicidade fora de nós mesmos, nas coisas e em outras pessoas. Por isso a vida oscila entre sofrimento (na falta de algo externo) e tédio (em não querer mais aquilo que já se tem).

Acho que nós confundimos felicidade com a adrenalina da conquista. Infelizmente, isso parece verdadeiro para todos nós. Mas, sem estar casado e feliz consigo mesmo, a vida vai seguir sendo uma monogamia (ou poligamia) consecutiva, onde sempre se precisa de mais e mais.

É, vamos continuar filosofando pra ver se a gente encontra uma saída.

Friday, 29 August 2008

Tempo de casado

por Fabrício Carpinejar

"Eu não consigo escrever de relógio de pulso. Aperta, esfria o sangue.

Não é problema com o tempo, é com o braço. Não me tolero amarrado a uma angústia.

Aceito relógio quando caminho. Não sei parar com ele. Eu sou um relógio de vogais.

Sentei aqui para redigir seu rosto.

Vou por partes, para não me entender mesmo. Sofrer é fazer que tudo tenha sentido.
Quando tudo tem sentido nada mais tem.

A alegria é não precisarmos de sentido afora estarmos juntos.
Um com o outro. Um no outro. Um para o outro.

Passo a concluir que a alegria é profunda e a tristeza é superficial.

A tristeza não cansa de ter razão. Quem tem razão, briga. Busca convencer. Não sairá do quarto sem a desistência da oposição. Consolar é concordar, igualando - com infelicidade - as opiniões.
O primeiro que se mostra contrário ao sofrimento não está apoiando.

A alegria é muito mais tolerante. Não pede concordância para continuar existindo.
Eu descobri o motivo da separação dos casais que ficam mais de dez anos, mais de quinze anos:

A exigência.

Falta-lhes humildade para recomeçar. Tornam-se extremamente exigentes. Impacientemente exigentes. Viveram tanto, com tantas dádivas para comparar que não aceitam menos do que foram.

Quando você me observa, está me comparando comigo dando força em sua gravidez, com o início festivo do namoro, com a espontaneidade da casa desmobiliada e um colchão no chão, com o amigo que falava sem cessar no restaurante para não desmerecer sua risada, com o amante seguro que dorme ao lado da porta para protegê-la.

Você não me observa mais, você me anula diante de todos os homens que já fui.
Vou pagando empréstimos com empréstimos.

Ainda me procura alinhado, mas sou sua roupa solta pelo sofá.

Cogitava, o que vivemos iria nos ajudar a continuar vivendo, como um reservatório de confiança. Na fraqueza, puxaríamos uma lembrança e logo nos sensibilizaríamos, selaríamos as pazes e diríamos que é bobagem continuar discutindo.

Mas o que ocorre é o inverso. O que nós vivemos nos atrapalha. Nos emperra. Nos empaca.
O marcador de página já faz sombra amarela no livro.

Os apaixonados têm mais facilidade em se aceitar do que nós. Porque eles não existiram antes para apontar falhas e descaminhos. Correm com a leitura. Serão receptivos, atentos e esperançosos. Há mais ânsia do que alma.

Não aconselho apagar o que fomos, e sim não repetir, não determinar o que é meu ou seu. Não buscar um insano consenso com o passado, ou uma coerência passiva. Admitir que ambos falharam na vida, mas que é infinitamente melhor do que falhar no amor.

Eu só desejava que você me olhasse como se fosse um desconhecido.
Que me cumprimentasse não sabendo mais nada de mim.
Nada, além da vontade de conhecê-la."

P.S.: I just wanna tell you that I understand...

Friday, 22 August 2008

Uma fábula infantil para adultos

"Sempre quis ser feliz. Felicidade de árvore, puxar o galho pesado de frutos como quem abre um guarda-chuva para o rosto. Felicidade de rodar o corpo várias vezes até entontecer e deitar na grama para observar as nuvens. Aquela tontura era quando meus lábios tiravam as sandálias.

Quando não previa que era feliz, a felicidade não terminava.

Ao conhecer a felicidade, passei a defendê-la. Passei a me acostumar com ela e procurá-la onde já a tinha encontrado. Não procurava onde não a conhecia. Eu gastava a felicidade de antes. A felicidade que existia dentro da felicidade. Não a felicidade que existia fora da felicidade, que também poderia ser minha.

Minha felicidade logo virou a desconfiança de que os demais cobiçavam a minha felicidade. Logo virou a suspeita de que não poderia ser feliz, obrigado a me conter. Caso demonstrasse, estaria esnobando. Alertando os ladrões. Não podia sair mais com a minha felicidade. Escondia em casa, atrás dos livros.

Sem felicidade, aprendi a viver com a lembrança dela. Estava quase feliz, remotamente feliz, pois poderia retornar à felicidade de noite. Retornar à felicidade era meu jeito de ser feliz. Ou de parecer feliz durante o dia.

Fiquei assustado quando alguém me falou que eu não era sério, que precisava ser adulto. Tentei ser feliz e não rir. Ao sentar a boca, esquecia que estava feliz e permanecia somente sério. A concentração para não rir me tirou a vontade de falar.

Complicado o negócio de ser feliz. Desisti, portanto, de minha felicidade para deixar os outros felizes. Abri mão das coisas. Queria que minha mulher fosse feliz – girava o quarto para que ela fosse. Queria que meu filho fosse feliz – girava a sala para que ele fosse. Quando um ou outro estava feliz, eu não pensava em minha felicidade. Nem que a tinha escondido para nunca mais rever. Já não me lembrava onde estava: atrás de que livro? Que autor? Qual estante?

Quando recebia convite para estudar no exterior, concluía:
- Outra hora.

Quando recebia convite para um novo trabalho, concluía:
– Outra hora.

Não me constrangia em esperar. A felicidade da minha mulher e dos meus filhos foi formando minha felicidade. Até que bateu um remorso por não ser feliz sozinho, afinal todos são felizes sozinhos. A dependência me doía. Eu tinha que esperar que fossem felizes para me acalmar. Não que tivesse deixado de ser feliz, eu esperava o reconhecimento deles para então perceber que fui feliz. Eu era feliz depois de ser feliz.

As coisas abriram suas mãos. Acreditava que me anulava. O mesmo remorso de uma dona-de-casa depois de arrumar a bagunça, sentar na cozinha, descobrir que o minuto de seu sossego é o cigarro e que todo mundo vai esperar a casa limpa, como sempre, e nada será comentado. Porque a casa limpa é invisível, como a felicidade.

A felicidade deles tornou-se minha infelicidade. Fui cobrando a devolução dos dias felizes que dediquei à felicidade deles. Pedindo a devolução das minhas semanas, uma por uma. Não conseguia diferenciar o que era meu do que era deles. Numa partilha, como dizer quem gosta mais de um disco ou de um filme?

Minha felicidade não era infeliz, mas sem assunto. Confundi sem assunto com infeliz. Não tinha o que contar de mim, só deles. Eu era mais a promessa de felicidade deles do que o meu passado.
Eles foram ficando tristes porque minha felicidade não aparecia. Nem depois. Nem como véspera. Eles não sabiam como devolver minha felicidade. Porque a felicidade deles também era me fazer feliz
."

Fabrício Carpinejar

Esse texto do Carpinejar foi, como muitas outras coisas, extraído não do blog do autor (http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/), mas do fotolog da minha amiga Carol Cigerza (http://www.fotolog.com/cigerza), parada obrigatória para boas leituras.

Thursday, 14 February 2008

14 de fevereiro, dia de São Valentin

Em homenagem ao dia dos namorados aqui na Europa, decidi fazer uma reunião aqui de frases sobre o amor...

When love is not madness, it is not love. ~Pedro Calderon de la Barca
(Quando o amor não é loucura, não é amor)

Loving is not just looking at each other, it's looking in the same direction. ~Antoine de Saint-Exupéry, Wind, Sand, and Stars, 1939
(Amar não é apenas olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção)

Gravitation is not responsible for people falling in love. ~Albert Einstein
(A gravidade não é responsável pelas pessoas caírem de amor)

I don't understand why Cupid was chosen to represent Valentine's Day. When I think about romance, the last thing on my mind is a short, chubby toddler coming at me with a weapon. ~Author Unknown
(Não entendo porque o cupido foi escolhido para representar o dia dos namorados. Quando penso sobre romance, a última coisa que quero na minha mente é um bebê baixinho vindo na minha direção com uma arma)

You have to walk carefully in the beginning of love; the running across fields into your lover's arms can only come later when you're sure they won't laugh if you trip. ~Jonathan Carroll, "Outside the Dog Museum"
(Ande cuidadosamente no começo do amor; a idéia de correr através dos campos para os braços do seu amor só pode vir mais tarde, quando você tiver certeza de que ele(a) não vai rir se você tropeçar)

We are all a little weird and life's a little weird, and when we find someone whose weirdness is compatible with ours, we join up with them and fall in mutual weirdness and call it love. ~Author Unknown
(Somos todos um pouco estranhos e a vida é um pouco estranha; quando achamos alguém cuja estranheza é compatível com a nossa, nos unimos com ele(a) e caímos nessa estranheza mútua que chamamos de amor)

Love is a smoke made with the fume of sighs. ~William Shakespeare
(Amor é a fumaça criada pelo fumo dos suspiros)

Who, being loved, is poor? ~Oscar Wilde
(Quem, sendo amado, é pobre?)

Grow old with me! The best is yet to be. ~Robert Browning
(Envelheça comigo! O melhor ainda está por vir)

Without love, what are we worth? Eighty-nine cents! Eighty-nine cents worth of chemicals walking around lonely. ~M*A*S*H, Hawkeye
(Sem amor, o quanto valemos? Oitenta e nove centavos! Oitenta e nove centavos de químicas andando por aí sozinhos)

Love is the magician that pulls man out of his own hat. ~Ben Hecht
(Amor é o mágico que tira o homem de dentro de sua própria cartola)

Are we not like two volumes of one book? ~Marceline Desbordes-Valmore
(Não somos como dois volumes de um mesmo livro?)

A bell is no bell 'til you ring it,
A song is no song 'til you sing it,
And love in your heart
Wasn’t put there to stay
Love isn’t love
'Til you give it away.
~Oscar Hammerstein, Sound of Music, "You Are Sixteen (Reprise)"
(Um sino não é um sino até que você o toque
Uma canção não é uma canção até que você a cante
E o amor no seu coração
Não foi colocado lá para ficar
Amor não é amor
até que você o dê para alguém)

Love makes your soul crawl out from its hiding place. ~Zora Neale Hurston
(O amor faz a alma sair do seu esconderijo)

Love is a game that two can play and both win. ~Eva Gabor
(O amor é um jogo que dois jogam e ambos ganham)

Without love, the rich and poor live in the same house. ~Author Unknown
(Sem amor, o rico e o pobre vivem na mesma casa)

We don't believe in rheumatism and true love until after the first attack. ~Marie Ebner Von Eschenbach, Aphorism
(Não acreditamos em reumatismo e amor verdadeiro até termos o primeiro ataque)

Love, and a cough, cannot be hid. ~George Herbert, Jacula Prudentum, 1651
(Amor e tosse não podem ser escondidos)

Love unlocks doors and opens windows that weren't even there before. ~Mignon McLaughlin, The Second Neurotic's Notebook, 1966
(O amor destrava portas e abre janelas que não estavam lá antes)

A man is not where he lives, but where he loves. ~Latin Proverb
(Um homen não está onde ele mora, mas onde ele ama)

The heart has its reasons that reason knows nothing of. ~Blaise Pascal, Pensées, 1670
(O coração tem razões que a própria razão desconhece)

True love stories never have endings. ~Richard Bach
(Verdadeiras histórias de amor nunca acabam)

Nobody has ever measured, even poets, how much a heart can hold. ~Zelda Fitzgerald
(Ninguém nunca mediu, nem mesmo poetas, o quanto um coração pode aguentar)

Ah me! love can not be cured by herbs. ~Ovid
(O amor não pode ser curado com ervas)

Love is the poetry of the senses. ~Honoré de Balzac
(O amor é a poesia dos sentidos)

Come live in my heart and pay no rent. ~Samuel Lover
(Venha morar no meu coração e não pagar aluguel)

Love is what you've been through with somebody. ~James Thurber, quoted in Life magazine, 1960
(Amor é o que você passou com uma pessoa)

Love is being stupid together. ~Paul Valery
(Amar é ser estúpidos juntos)

My heart to you is given:
Oh, do give yours to me;
We'll lock them up together,
And throw away the key.~Frederick Saunders
(Meu coração para você é dado
Me dê o seu
Trancaremos eles juntos
e jogarmos fora a chave)

What the world really needs is more love and less paper work. ~Pearl Bailey
(O que o mundo realmente precisa é mais amor e menos trabalho burocrático)

The most important things are the hardest to say, because words diminish them. ~Stephen King
(As coisas mais importantes são as mais difíceis de dizer, porque as palavras as diminuem)

Like I've always said, love wouldn't be blind if the braille weren't so damned much fun. ~Armistead Maupin, Maybe the Moon
(Como eu sempre disse, o amor não seria cego se braille não fosse tão divertido)

True love comes quietly, without banners or flashing lights. If you hear bells, get your ears checked. ~Erich Segal
(O amor verdadeiro vem aos poucos, sem faixas ou luzes piscando. Se você escutar sinos, vá checar os seus ouvidos)

Love is the silent saying and saying of a single name. ~Mignon McLaughlin, The Neurotic's Notebook, 1960
(O amor é o falar silencioso de apenas um nome)

Sunday, 30 December 2007

O quase

"Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

por Sarah Westphal Batista da Silva